titulo adoção

Sem acolhimento não existe família

Por Julián Carrón*

Um amor é a surpresa de uma presença que te corresponde. A intervenção de padre Carron no Meeting de Rimini foi dedicada ao significado e à raiz profunda do relacionamento conjugal.

Qual novidade o relacionamento entre homem e mulher, no matrimônio, introduz na realização da pessoa, no viver a vocação (isto é no relacionamento com o destino), no jogo da liberdade? E qual a sua importância para a educação dos filhos? O modo de responder é partir da experiência, olhar não o relacionamento do homem e da mulher em abstrato, mas o teu relacionamento com aquela mulher. Olhar para surpreender, no ato, a experiência que fazes. Porque você sabe o que significa aquela mulher para ti, no que experimenta, no teu relacionamento com ela. Por isto dizemos que a realidade (no caso presente, a mulher) se torna transparente na experiência. Eu percebo o que aquela mulher significa para mim no relacionamento que tenho com ela.
Aquela mulher se revela na tua experiência como a coisa mais atraente que existe no mundo. Tanto é verdade que, depois de tê-la encontrado, não compreenderias um mundo no qual ela faltasse. Isto é, antes de tudo, um fato que te encontra desprevenido. Você não o escolhe, ele acontece. É uma surpresa. “Um amor é a surpresa de uma presença que te corresponde”1.
Está contente porque esta pessoa existe e porque tiveste a sorte de encontrá-la. O mundo é diferente porque ela está ali, porque ela existe. O fato de que seja a sua existência algo que te atinge fortemente, te facilita compreender o método usado pelo Ser para se fazer conhecer. De fato, para se fazer conhecer o Ser usa o método da preferência: coloca-te ante uma pessoa com tal atrativo que você não pode resistir sem a consciência de perder a melhor coisa que já te aconteceu na vida.
“Não necessariamente a esposa, escreve D. Giussani, é a mulher mais bela do mundo (isso é ilusão de três segundos de quem se apaixona), mas a esposa é realmente o ponto de preferência objetivo, porque não há nada que te recorde o Ser, o relacionamento com o destino e o relacionamento da vida com o golpe que o Ser te dá, como aquele relacionamento”2.
“A família é um sinal original dado pelo próprio Criador. Aquilo que é mais decisivo como instrumento para introduzir no relacionamento definitivo com o destino, ou seja, com a verdade, com a beleza e com a justiça, no relacionamento com qualquer coisa e pessoa, é de fato determinado, nós não o decidimos: um Outro estabelece este instrumento. Foi Ele mesmo que dotou a nossa natureza da constitutiva urgência de uma reciprocidade de estima e de gratuidade, foi Ele mesmo que criou a primeira figura experimental que permanecerá por toda a história, um lugar onde essa urgência de caridade se torna estável e essencial: a família”3.
Esse relacionamento preferencial revela a vocação, porque de nenhuma outra coisa você de percebe mais chamado que por aquela pessoa. Nenhuma outra desafia a tua liberdade, como capacidade de cumprimento total de si mesmo, da tua pessoa, ou seja, o teu desejo de realização total, como aquele relacionamento. O amor àquela pessoa é tão cheio de significado para ti que se torna parte da definição de ti mesmo. “O que é o amor? É afirmar o outro. Afirmar o ser, é amor. ...Mas o amor implica uma outra conotação: afirmar o outro como significado de si: não o significado de si, mas como significado de si; o outro entra no significado de mim. Afirmar o outro como significado de si, isto é, como participante do significado de si: tu participas da definição de mim mesmo; o tu participa daquilo que me define. Por isto é amor”.
Mas, através daquela pessoa, quem te chama é o Ser, o Mistério. Por quê? Porque desde o primeiro instante você tem a consciência de que aquela pessoa lhe foi dada. Ainda mais, te é dada agora. Você se acha diante de um fato. E, por isso, está consciente de que não é você a mantê-la em vida, mas também não é ela. É o dar-se conta de que te seja dado aquilo que te preenche de comoção e gratidão.
Através desta experiência você percebe que o seu ser não é gerado por si, tampouco por ela. Quem o gera? Quem o dá agora? Quem o conserva para ti? O Ser que lhe dando a vida a faz participar do seu ser. Por isso, quanto mais a olhas com todo o teu conhecimento, tomando consciência do real segundo todos os seus fatores, tanto mais te dás conta de que a sua presença é sinal de um outro, te remete a um outro. O seu significado para ti é lembrar-te o significado. Por isto a pessoa amada é aquela que mais te introduz ao relacionamento com o Ser. Torna mais evidente para ti o destino e a tarefa.
A ninguém passa despercebido o que quer dizer esse relacionamento, visto dessa forma, para a educação dos filhos. Se educar é introduzir um outro na realidade, e só se introduz quando se lhe comunica o significado, só pode realizar essa tarefa de educar quem, por sua vez, foi introduzido na realidade, com o fim de descobrir o seu significado. Por isso quanto mais os pais vivem com verdade e plenitude a sua vocação, o seu relacionamento com a consciência de ser chamado pelo Ser, tanto mais são capazes de desenvolver a sua tarefa de genitores, que não é apenas colocar os filhos no mundo, mas dar-lhes o significado. Senão é uma injustiça trazer filhos ao mundo, tanto é verdade que muitos não têm filhos porque, ao invés de trazê-los a este mundo sem um sentido, é melhor não trazê-los. Esta é reconhecida como uma das razões da redução nos índices de natalidade.
É como quando se presenteia um menino com um jogo eletrônico. O fabricante coloca na embalagem as instruções para seu uso, senão o menino o utilizará do seu próprio jeito, como lhe agrade e depois de algum tempo terminará por desinteressar-se dele; não é justo dar-lhe um brinquedo e não lhe explicar como funciona.
É um exemplo daquilo que sucede com a criança. Os pais dão à criança o presente mais precioso: a vida. Mas esse brinquedo que lhe foi dado não traz as instruções para o uso. É por isso que o Mistério o fez nascer numa família, para que ali, no seio da família, em meio àquela tradição, lhe seja comunicado o Significado, ele seja introduzido ao Mistério da vida, aprenda a relacionar-se com o real na sua verdade.
Por isso é na educação dos filhos, na comunicação desse significado, que os pais realizam sua paternidade. É aí que se torna evidente que são pais, porque, juntamente com a vida, comunicam ao filho o seu significado. Mas esta comunicação não é uma transmissão abstrata de conteúdos, não é a entrega de instruções para o uso, mas o testemunho daquilo que pode ser a vida vivida na sua plenitude. “Só se pode salvar um outro, dizia Kafka, através da sua própria existência”4. Por isso a importância da vida dos genitores, do empenho para viver o seu relacionamento a fim de descobrir o significado, para a educação dos filhos. Eles, com a sua vida, gritam diante do filho a razão pela qual vale a pena nascer.
Mas para que tudo isto aconteça, ocorre, desde o início, colocar em jogo a liberdade. Dissemos que nenhuma outra coisa desafia tanto a liberdade como a atração pela pessoa amada. Mas há uma coisa que a pessoa amada não pode fazer no meu lugar: acolher o dom da sua presença. Por isto disse D. Giussani que a primeira atividade é uma passividade: “é uma passividade que constitui a minha atividade originaria, aquela do receber, do constatar, do reconhecer”5. Sem este acolhimento não seria família. É por isso que o acolhimento está no DNA da família, pertence à sua própria constituição. “A família é o primeiro fenômeno, por natureza, no qual o acolhimento assume estas conotações totalizantes”6 (p. 65).
Por isso vocês prolongaram, na vossa associação Famílias para a Acolhida, a verdadeira natureza da família. Há pouco um de vocês me contava, e este episódio me impressionou muito, que um pai tem um filho com graves dificuldades, cego e com outros problemas, mas isto não impediu o despertar, no pai, da afeição ao seu filho. Tanto é verdade que não saía para trabalhar sem saudá-lo e beijá-lo, mesmo sem poder receber dele nenhuma reação. A atração do real é tão potente que, mesmo quando alguém tem muita dificuldade e não tem nenhuma resposta, não é capaz de anular esta atração e a ela se apega. Um dia aquele pai estava com pressa e esqueceu-se de saudá-lo. Enquanto ia para o trabalho se sentia mal, apercebeu-se de que não o havia saudado e esta lembrança o fazia pensar no Ser que não havia reconhecido, o Ser que lhe tinha dado aquele menino, e para o Qual não havia rezado no Ângelus.
Acolher o real assim, porque o real, mesmo em um menino nessas condições, desperta uma atração que não pode deixar de introduzir ao Ser, e quando alguém se esquece este esquecimento te ativa, te impele a fazer memória do Ser. Este é o valor da família: que te projeta ao destino, à realização de si mesmo.
Mas não seria realista terminar sem se dar conta de uma dificuldade: a nossa fragilidade, o nosso mal. É por isto que o Mistério teve misericórdia de nós fazendo-se companheiro de caminhada. Como? Agora o podemos entender melhor: com o próprio método da preferência, isto é, suscitando diante de nós uma atração de tal modo vencedora que possa te facilitar o reconhecimento e a adesão a ela. Esta atração tem um nome, Jesus, que permanece presente na companhia dos homens que o reconhecem como companhia e significado do viver, também na família. Acolhendo a sua Presença, que a cada instante te desperta em vista de um olhar cheio de ternura lançado a ti, cheio de compaixão com a sua fraqueza mortal, você é capaz de não perder o caminho, de não se deixar vencer pelo medo e pelo pânico. E a este reconhecimento de Cristo presente na atração exercida por uma presença irredutível, na minha forma de pensar, ninguém o pode entender melhor que uma pessoa casada. Disto nos deixou Lewis um testemunho sem comparação. Com as suas palavras concluo a minha participação:
“O dom mais precioso que me foi dado pelo matrimônio foi aquele de fazer-me encontrar constantemente com alguma coisa de muito vizinho e íntimo, mas ao mesmo tempo absolutamente outro e irredutível; numa palavra, real...
Preciso de Jesus Cristo e não de qualquer coisa que a Ele se assemelhe. (...) Amo minha mulher e não qualquer coisa que se pareça com ela. A minha imagem de Deus é feita a pedaços, uma vez depois da outra. O próprio Deus a faz aos pedaços. Que seja feita aos pedaços é um dos sinais da sua presença. A encarnação é o exemplo por excelência; desfaz todas as imagens preconceituosas que se pudessem fazer do Messias. (...) A amada terrena, mesmo quando ainda vive, triunfa sempre sobre a mera idéia que se possa ter dela. E exige alguém que seja assim. ... Amá-la se torna, em certo sentido, amar Cristo... Não a minha imagem de Deus, mas Deus; não a minha imagem da minha mulher, mas a minha mulher”.

* Julián Carrón é doutor em teologia e é o responsável mundial do Movimento Comunhão e Libertação


1 L. Giussani, Del temperamento un método, p. 115.
2 L. Giussani, Del temperamento..., cit., p. 26-27.
3 L Giussani, Generare tracce, p. 100.
4 F. Kafka, Carta a Milena, Praga 31 de julho de 1920.
5 L. Giussani, O senso religioso, p. 141.
6 L. Giussani, Il miracolo dell’ospitalità, p. 65.



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