Teologia dá pressupostos para a construção de uma Bioética personalista (1)
Fraternidade e defesa da vida
Escolhe, pois, a vida (Dt 39,19)
O ideal seria, se não fosse necessário uma Campanha da Fraternidade para recordar a todos e de modo especial aos cristãos e aos homens de boa-vontade o valor mais basilar do ser humano que é o valor da vida humana, o valor singular de sua existência. A vida é um grandioso dom. Se o direito à vida não é respeitado, nenhum dos outros direitos o será. A vida humana não se toca, não se pisa, não se manipula, não se vota. A vida é sempre vida. A vida humana inocente é sagrada e inviolável. E em última análise atacar, dizimar, assassinar a vida humana que surge na união do espermatozóide com o óvulo, é atacar e ofender a própria Santíssima Trindade.
Deus não faz diferença entre um embrião, uma mórula, uma blástula, uma glástula, um feto, uma criança apenas nascida, um adolescente, um jovem, um ancião, uma pessoa em coma, uma mulher marginalizada, um drogado, um doente terminal. Todas as fases da pessoa humana são importantes. Quando se trata da vida humana inocente, daquele que não pode se defender e não pediu para vir ao mundo, a proibição de não matar é absoluta. E esta vida deve ser acolhida, defendida e promovida sempre em quaisquer dos estágios da vida que se encontre.
Quem fomos nós que agora aqui estamos? Quem são aqueles que aqui no Brasil e em todos os lugares do mundo estão criando projetos contra a vida humana, destruindo a vida e o seu ambiente? Quem são aqueles que promovem o aborto, criam anticoncepcionais, mecanismos de esterilização artificial (vasectomia e ligadura de trompas)? Fabricando a pílulas do dia seguinte, eminentemente abortiva? Promovendo o aborto e das placentas produzindo substâncias para serem usadas na fabricação de cremes de beleza para uso estético? Manipulando e destruindo embriões humanos? Estes novos Herodes de ontem e de hoje esquecem que foram também eles embriões. Graças aos seus pais as suas vidas foram acolhidas e promovidas. Diante de ti ponho a vida e ponho a morte, mas tens que saber escolher, se escolhe matar também morrerás, se deixas viver também viverás e então vivas e deixas viver.
152. Diante da complexa realidade que nos foi apresentada, cada um de nós, os homens de boa vontade, a humanidade é chamada a discernir à luz da Palavra de Deus quais são os caminhos que conduz à morte e aqueles que constroem a vida. discernir necessidade fundamental do bem viver.
153. A capacidade de discernir acontece ao menos por duas razões: a primeira encontra-se na linha de uma convergência de ciências que oferecem um volume imenso de conhecimento e de poder sobre a vida. A segunda é a dúvida sistemática da cultura moderna com relação aos valores que constroem realmente a plenitude da vida humana.
Escutemos a recomendação de S. Paulo, de “examinar tudo e guardar o que for bom” (I Ts 5,21). Bom é todo caminho que conduz ao respeito da vida humana, sua defesa e sua promoção. A vida humana em quaisquer dos seus estágios é sagrada, inviolável, única e singular. O juízo cristão, mais do que uma condenação, é um convite à verdadeira vida (cf. Rm 2,1-13).
Um discernimento responsável deve ser permeado de uma relação entre experiência de fé e de razão.
“Ainda que a fé esteja acima da razão, não poderá jamais haver verdadeira desarmonia entre uma e outra, porquanto o mesmo Deus que dotou que revela os mistérios e infunde a fé dotou o espírito humano da luz e da razão”, diz o Catecismo da Igreja Católica, 159.
A mesma relação deve existir entre as normas morais e a liberdade. Nem tudo que somos livres de realizar é objetivamente e eticamente bom. A liberdade exacerbada, ilimitada se torna libertinagem e agente de destruição do outro. João Paulo II recorda na encíclica Veritatis splendor: “o que a lei ordena está escrito nos seus corações (Rm 12,15). A pessoa humana, para realizar-se plenamente, deve seguir uma lei natural, um dinamismo inerente ao seu modo de ser, que não está em contradição com a sua liberdade, mas – pelo contrário – lhe dá maior valor. As aparentes contradições entre essa lei natural e a liberdade se devem a uma visão redutiva do ser humano, que considera que apenas aquilo que é instintivo seria natural. Uma visão integral não deve levar à censura do corpo, com todas as suas manifestações biopsíquicas, mas considerar a pessoa numa unidade que leva em conta todas as suas inclinações biológicas e espirituais” (VS 12, 37, 46-50).
João Paulo II: “A origem e o fundamento do dever de respeitar absolutamente a vida humana devem-se encontrar na dignidade própria da pessoa, e não simplesmente na inclinação natural para conservar a própria vida física. Assim, a vida humana, mesmo sendo um bem fundamental do homem, ganha um significado moral pela referência ao bem da pessoa que deve ser afirmada por si própria”.
A luta, contra o aborto, ou contra a manipulação de embriões humanos, por exemplo, nunca será adequadamente compreendida se pensarmos o embriao apenas como um maciço de células informes, um ser vivo ao mais. Só quando olhamos tanto para ele quanto para nós mesmos como seres humanos dotados de uma dignidade que não pode ser tirada é que percebemos a importância de defender a vida humana.
I. A vida, Dom de Deus
Quando Deus criou o mundo com sua Palavra, expressa sua satisfação, ele afirma dizendo “era bom” (Gn 1,21). Quando criou o ser humano, homem e mulher, disse, que era muito bom (Gn 1,31). Deus criou o ser humano a sua Imagem e semelhança, criou homem e mulher. Em uma linguagem simbólica a Palavra de Deus afirma que Deus insuflou de suas narinas o hálito de vida. Assim se mostra que a vitalidade, o ato de viver jorra do coração de Deus. Ele que nos criou e nos chamou à existência e a vida tem sua origem no próprio Deus. Nós só existimos nele. Se a Trindade Santa quisesse nada existiria, nem mesmo o homem. A vida nos foi dada, não nos pertence, não somos senhores da vida, mas se origina em Deus. Ele é o Senhor da vida.A beleza da vida nos conduz a Deus.
1. A beleza da vida nos conduz a Deus
“O homem com a sua inteligência, é capaz de conhecer a constituição do universo e a força dos elementos (....), o ciclo dos anos e a posição dos astros, a natureza dos animais mansos e os instintos dos animais ferozes (Sb 7,17. 19-20). Contemplando a natureza podemos chegar ao Criador. Só um Deus belo que é a própria beleza pode criar coisas tão belas. “Pela grandeza e beleza das criaturas, pode-se, por analogia, chegar ao conhecimento do seu Autor (Sb 13,5)”.
Infelizmente perdeu-se a capacidade de ver na natureza e no universo traços do Criador. Outros se escandalizam com o mistério do mal no mundo e nos perguntamos como pode ser o mal compatível com a bondade do Criador. Para superarmos esse escândalo, diz Bento XVI: “temos realmente necessidade de Deus que se fez carne e que nos mostra que Ele não é apenas uma razão matemática, mas que esta razão originária também é Amor”.
No Livro do Gênesis o Senhor deu uma ordem ao homem: “Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não deves comer, porque, no dia em que dele comeres, com certeza morrerás” (Gn 2,16-17). Os autores sagrados não alimenta nenhum tabu contra o conhecimento científico. Mas este relato procura nos mostrar que não podemos decidir a partir de nossas intenções o que venha a ser o bem e o mal. Existe uma objetividade, inscrita na natureza, que determina o que é bom e o que é mau. O caminho da nossa verdadeira liberdade e felicidade é aderir ao caminho do bem que, por obra de Deus, está inscrito em nossa natureza.
Os dois primeiros capítulos do gênesis ressaltam os planos originais de Deus que são de felicidade e não de desgraça; de realização e não de frustração; de vida e não de morte.
2. A vida é sempre um bem
A vida é sempre um bem. Por que motivo a vida é um bem? Esta pergunta percorre a Bíblia inteira desde o Gênesis. A vida que Deus dá ao homem é diversa e original, se comparada com a de qualquer outra criatura viva, dado que ele, apesar de aparentado ao pó da terra (cf. Gn 2,7; 3,19. Jó 34,15; Sl 103, 14; 104, 29), é no mundo, manifestação de Deus, sinal de sua presença, vestígio de sua glória. Assim sublinhou S. Irineu: “A glória de Deus é o homem vivo e a vida do homem é a visão de Deus”. Ao ser humano foi dada um a dignidade sublime, que tem suas raízes na ligação íntima que une ao seu Criador.
O ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus (inteligência, sabedoria, capacidade de auto-reflexão, sexualidade e afetividade; homem e mulher, Deus os criou). Do Caos indefinido, Deus fez surgir o homem como criatura viva mais perfeita. Assim deve encher e dominar a terra (Gn 1,28), Deus os ordenou a cultivar e guardar a vida (cf. Gn 2,15). O ser humano tem um primado sobre as coisas, foram entregues à sua responsabilidade, para se relacionar com o outro, com o ecossistema, com toda natureza que o envolve com sabedoria e à exemplo do criador acolher, defender e promover à vida em todos os seus estágios e dimensões.
3. A compreensão da pessoa humana a partir do Livro do Gênesis
Redescoberta de uma antropologia adequada.
A interioridade é exatamente o que distingue como pessoa dos demais seres. Ele é criado no mundo visível, porém lhe é superior, chamado a dominá-lo e a subjugá-lo.
Ao criar o ser humano, o Criador como que se recolhe em si mesmo para tomar a decisão: “Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26). Criado na relação com o Criador, ele não pode ser compreendido por categorias deduzidas do mundo material, embora ele seja também corpo. Na segunda narrativa da criação (Gn 2,4ss) já se encontra o primeiro registro dessa autocompreensão do homem, o primeiro testemunho da consciência humana. Outra característica da pessoa humana é a autodeterminação, o que se pode depreender da seqüência da narrativa bíblica, quando aparece o decisivo momento da opção, da vontade livre, diante da árvore do bem e do mal.
No princípio segundo o Gn se revela o estado de inocência original que simboliza harmonia entre os seres humanos, entre homem e mulher, entre o ser humano e o cosmos. O estado de pecado determina um estado de morte e de se produzir a morte de si mesmo e da vida inocente.
“Não é bom que o homem esteja só; vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda” (Gn 2,18). Esta solidão original abre o caminho para a unidade original do homem e da mulher, que tem suas raízes na criação do ser humano como masculino e feminino. Essa unidade não elimina a complementariedade entre o homem e a mulher.
A solidão do homem experimentada em sua inteiroridade se abre, assim, para a comunhão de pessoas. E revela sua trancendência.
A solidão, portanto, que é parte do ser pessoa (tanto do homem como da mulher) faz com que o ser humano adquira consciência de ser alguém original e único dentro da criação, ao mesmo tempo que ele é um ser aberto e chamado a comunhão.
Homem e mulher ele os criou (Gn 1,27) como sinal de que o AMOR é o tecido constitutivo da pessoa humana. A pessoa imagem e semelhança de Deus porque traz em si aquela qualidade divina que é a comunhão. Se Deus é amor, como os ensina S. João, a pessoa humana é chamada a ser amor, desde a sua origem. Por isto mesmo a luta pela defesa e promoção da vida brota do amor. Defender a vida, escolher a vida é amar.
O Corpo e o sexo não pode ser tratado como uma coisa, um objeto, sem a pessoa, sem a consciência de ser um dom especial. A corporeidade e a sexualidade humana possui uma singular dignidade de exprimir a imagem e semelhança de Deus. A pessoa humana jamais deve ser reduzido a um objeto egoísta de pura satisfação sexual, a pessoa humana não é um material descartável.
O próprio Deus indica o caminho da felicidade e da vida. Evangelium vitae, João Paulo II nos recorda que o próprio Deus nos convida para sermos povo da vida e pela vida, para sermos sempre em todas as situações promotores e defensores da vida. “Também para nós, ressoa claro e forte o convite de Moisés: Vê ofereço-te hoje, de um lado a vida e o bem; do outro, a morte e o mal (...). coloco diante de ti a vida e a morte, a felicidade e a maldição. Escolhe a vida, e então viverás com toda a tua posteridade (Dt 30,15.19). é um convite muito apropriado para nós, chamados a cada dia a ter de escolher entre a cultura da vida e a cultura da morte. mas o apelo do Deuteronômio é ainda mais profundo, porque nos chama à uma opção especificamente religiosa e moral. Trata-se de dar à própria existência uma orientação fundamental, vivendo com felicidade e coerência a Lei do Senhor: Recomendo-te hoje que ames o Senhor, teu Deus, que andes nos seus caminhos, que guardes os seus preceitos e seus decretos (...). Escolhe a vida, e então viverás com toda a sua posteridade. Ama o Senhor, teu Deus, escuta a sua voz e permanece-Lhe fiel, porque é Ele a tua vida e a longevidade dos teus dias (Dt 30,16.19-20)” (EV 28).
A encíclica EV continua lembrando que a fé em Cristo leva a perfeição a mensagem do Deuteronômio. A decisão incondicional a favor da vida atinge em plenitude o seu significado moral e religioso no encontro de fé com a pessoa de Jesus Cristo. O Filho de Deus se fez homem e veio habitar entre nós para que tenhamos vida e tenhamos em abundância (Jo 10,10). Jesus é o Zoé do Pai, vida que origina toda e qualquer vida (Bios).
II. O ENCONTRO COM CRISTO NOS CONVIDA A ESCOLHER A VIDA
“Jesus Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, com palavras e ações e com sua morte e ressurreição, inaugura no meio de nós o Reino de vida do Pai”.
1. Uma postura de acolhida
Jesus o bom pastor que comunicar-nos a sua vida e colocar-se a serviço da vida, da esperança. Ele se aproxima e cura o cego no caminho, dignifica a samaritana, perdoa a adultéra, alimenta o povo faminto, liberta os endemoninhados. Em seu Reino de vida, Jesus inclui a todos: come e bebe com os pecadores (Mc 2,16), toca com as mãos os leprosos (Lc 5,13), deixa que uma prostituta lhe unja os pés (Lc 7,36-50), recebe a noite Nicodemos e o convida a nascer de novo (Jo 3,1-15), convida a sermos discípulos da reconciliação (Mt 5,44) e a optarem pelos mais pobres (Lc 14,15-24).
Esta postura de acolhida, de amor desinteressado, amor de caridade está na base de todos os relacionamentos vividos por Jesus. Contrasta radicalmente com a postura desumana que está por trás do aborto, da pílula do dia seguinte, dos métodos artificiais de anticoncepção (pílulas anticoncepcionais, preservativo, Diu- abortivo, manipulação de embriões humanos, produção de células troncos embrionárias, embriões congelados, fecundação artificial, seja homóloga, que heteróloga).Em todas estas realidades a vida humana é reduzida a um objeto, a vida humana anão é acolhida integralmente. O homem tenta tomar o lugar de Deus, a criatura se faz criador, ao ponto de colocar à vida humana a prova – um verdadeiro eugenismo, que leva a uma guerra silenciosa contra o ser humano ainda não nascido (testes genéticos, aptidão física, exames pré-natal, onde se descobre que uma criança foi gerada com síndrome de Down, muito médicos aconselham a matar aquele criança, assassiná-la).
Nossa sociedade produz a cada dia mais experiências de não acolhida e de violência. São as novas ameaças contra a vida humana inocente. O ser humano não é acolhido por aquilo que ele é, mas por aquilo que ele produz, por sua capacidade de vier sempre no estado de prazer, de ter e de poder.
Ser cristão, é imitar Cristo e acolher o outro sempre com gratuidade. Seria uma hipocrisia comungarmos, amarmos a Palavra de Deus, venerarmos N. Senhora e termos atitudes contra a pessoa humana.
Diante do hedonismo, busca de prazer contínuo Jesus propões entregar a vida para ganhá-la (Jo 12,25). Diante do individualismo, Jesus convoca a fazer comunidade, ser Povo da vida e pela vida. diante da despersonalização Jesus nos ensina a ver no outro a sua face, ser mais irmão, sobretudo dos pobres, excluídos e marginalizados.
Na perspectiva utilitarista, o valor da vida humana, vem a ser calculado segundo o bem-estar físico (do ponto de vista individual) e a capacidade produtiva (do ponto de vista social). Assim, por exemplo, se uma mulher ela nota que está grávida e acha que não tem condição de criá-lo, ou diz que psicologicamente não está preparada para a maternidade ou traz em si uma criança mal-formada, a mulher afirma que causaria para si um mal-estar é racional que esta criança seja abortada. Assim também uma criança com síndrome de Down ou com qualquer deficiência este tem menos valor que uma pessoa dita normal, deve ser eliminada, mesmo pensamento para um doente terminal, ou alguém em estado vegetativo, etc.
Para Tristam Engelhardt Jr., em seu Manual de Bioética ele afirma que existem alguns seres humanos, que não são pessoas humanas, tais como: os fetos, as crianças com retardamento mental, pacientes em estado de coma, ou pacientes terminais, idosos doentes, por isso, em certas condições onde o paciente, em que o paciente encontra podem e devem ser eliminados.
2. O Bom Pastor e a dignidade da pessoa humana
O seguimento de Jesus não violenta, mas exalta nossa humanidade
A lógica da acolhida, do amor ao próximo, na defesa da vida humana, atinge seu vértice na figura do Bom Pastor que dá a sua vida pelas ovelhas (Jo 10,7ss). Ele tendo cem ovelhas, abandona noventa e nove delas para ir em busca da única perdida (cf. Mt 18,12-14). Lógica da acolhida parece ir longe demais. Jesus, o bom por excelência se entrega pelos injustos, ímpios e pecadores. Ela deixa as 99 ovelhas desprotegidas para ir em busca da única perdida.
O deserto profundo do nosso coração é que sejamos amados de modo incondicional e gratuito. Até os cabelos da nossa cabeça estão contados (Mt 10,30).
Com tudo isto, Jesus Cristo anuncia a dignidade única de cada pessoa humana. Somos amados de modo único. Não somos apenas uma multidão. Uma pessoa que não fez a experiência de ser amada não perde sua dignidade natural, mas terá muito mais dificuldade de perceber-se dotada dessa dignidade. Por isso, a Igreja valoriza, desde sempre a família monogâmica, heterossexual como realidade sagrada, é no interior da família que se cresce a compreensão do valor de cada pessoa humana e a sua própria dignidade. Família aberta a vida, a sociedade, a Deus.
Assim se expressou João Paulo II, no II Encontro Mundial com as famílias no Rio de Janeiro, em ocasião da festa testemunho no Maracanã:
Famílias do mundo inteiro: acolhei a vossos filhos com amor responsável; defendei-os como um dom de Deus, desde o instante em que são concebidos, em que a vida humana nasce no seio da mãe; que o crime abominável do aborto, vergonha da humanidade, não condene aos meninos a mais injusta das execuções: a dos seres humanos mais inocentes . (2)
A percepção de ser pessoa, de ter essa dignidade que não pode ser tirada não depende do cristianismo, mas uma percepção mais integral da pessoa humana e da sua dignidade e de que a vida humana inocente é sagrada e inviolável atinge seu cume com o cristianismo.
Já dissera S. Tomás de Aquino: “Que a Lei civil não deve ir de encontro com a lei natural. A lei natural valoriza a vida e mostra que esta deve ser defendida. Por isso, uma lei civil que crie leis para atacar a vida, esta lei não é justa, é iníqua e não deve ser obedecida”.
III. A VIDA NO ESPÍRITO E A IGREJA
A Igreja é porta-voz da Palavra de Deus e da Tradição, canais onde Deus se revela. Para quem está longe da fé se torna difícil hoje compreender os sentidos dos Dez Mandamentos. Mas já Moisés recorda a vocação que Deus confiara ao seu povo e mostra por onde passam os caminhos da felicidade e da realização tanto das pessoas quanto das sociedades. Escolhe pois a vida, cf. Dt 30,15-20.
O Espírito de Deus, Espírito de vida e que doa a vida guia a Igreja de Cristo para que seja sempre fiel a mensagem de vida do Evangelho. Por isso, a Igreja inserida na sociedade e nas culturas deve ser germe de promoção e defesa da vida.
Ao dar a vida em abundância, o Espírito Santo faz reconhecer o próprio dom da vida deve ser partilhado e defendido. “Ao recebê-lo todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2). A verdade que deve ser anunciada hoje na força do Espírito Santo é a verdade da beleza e da sacralidade da vida humana.
1. O valor da vida e a dignidade da pessoa humana na história da Igreja
Desde cedo os cristãos, a Igreja primitiva se posicionou contra o aborto e o infanticídio reconhecendo a dignidade do embrião humano. Didaché e carta a Diogneto.
A Igreja, inserida no mundo como anunciadora eficaz do evangelho da vida, desde os primórdios, condenou moralmente o aborto. O testemunho mais antigo se encontra na Didaqué, que convida os cristãos que viviam entre a segunda metade do século I d.C. e os da primeira metade do século II d.C. a percorrerem um caminho de vida e se abster de percorrer o caminho de morte.
A Didaqué (3) tem a convicta certeza de que a novidade trazida por Cristo e o seu Evangelho se contrapõe à cultura grego-romana anterior ao próprio cristianismo, que se apoiava em filósofos como Aristóteles para a prática do aborto e do infanticídio (4). Ao propor aos cristãos quais eram, para com a vida, os deveres que os seguidores de Cristo devem vivenciar se quiserem ser coerentes com o ensinamento de Jesus, a Didaqué assim se exprime:
O segundo mandamento da instrução é: Não matarás, não cometerás adultério; não te entregarás a pederastia, não fornicarás, não furtarás, não exercitarás magia, nem bruxaria (charlatanice). Não matarás criança por aborto, nem criança já nascida; não cobiçarás o bem do próximo [...] O caminho da morte é o seguinte: em primeiro lugar, é mau e cheio de maldiçoes: mortes, adultérios, paixões, fornicações, roubos, idolatrias, práticas mágicas, bruxarias [...]. amantes da vaidade, cobiçosos de retribuição, sem compaixão com os pobres, sem cuidado para com os necessitados, ignorantes de seu Criador, assassinos de crianças, destruidores da obra de Deus (DQ 2, 2. 5, 1-2) (5).
A Cultura pagã, nos primeiros séculos, com o advento do Cristianismo, continua sua prática abortiva realizada frequentemente e vista com normalidade, permitindo assim com naturalidade a prática de tal crime (6). Todavia, desde os seus primórdios o cristianismo anuncia o valor e a dignidade da vida humana e quer construir uma cultura permeada pela defesa, acolhimento e valorização da vida. Inúmeros Padres da Igreja, seja no oriente seja no ocidente, condenaram tal prática (7). Assim afirma a declaração sobre o aborto procurado:
No curso da história, os Padres da Igreja, os seus Pastores, os seus Doutores, ensinaram a mesma doutrina, sem que as diversas opiniões sobre o momento da infusão da alma espiritual introduzissem uma dúvida sobre a ilegitimidade do aborto. Certo, quando na Idade Média era opinião geral que a alma espiritual não fosse presente só depois das primeiras semanas, se fazia uma diferença na avaliação do pecado e na gravidade das sanções penais [...] Mas ninguém jamais negou que o aborto procurado, mesmo que nos primeiros dias, fosse objetivamente uma grave culpa. Esta condenação foi de fato unânime . (8)
A Igreja em sua incansável luta na promoção de uma civilização de vida e de amor, desde as suas primeiras intervenções magisteriais, que vieram a partir dos Concílios regionais sempre com unanimidade, condenou o aborto e manifestou esta condenação de modo disciplinar, como notamos nos textos dos mais antigos Concílios como o Concílio de Elvira (305), seguido pelo de Ancira (314). O Concílio de Elvira proibia a mulher que praticou o aborto de se aproximar da Eucaristia por toda a vida, impondo uma penitência rígida para as pessoas que praticassem tal pecado que era comparado a um homicídio voluntário. Já o Concílio de Ancira diminuiu a penitência que a mulher que fez o aborto para um período de dez anos e impunha uma penitência por toda a vida para o homicídio voluntário. Também Basílio prescreve dez anos de penitência para o aborto e vinte anos para um assassinato. Entretanto o importante é notar que a partir do século IV se solidifica, na comunidade eclesial, a consciência que o aborto é um crime hediondo que deve ser evitado e foi sempre punido por penas severas (9). Desde o início com cristianismo o aborto era equiparado a um homicídio, de nenhuma forma a criança não nascida e mesmo nascida poderia ser suprimida, desprezada ou não acolhida. O cristianismo cresce no interior do Império romano anunciando a convicção que a vida de uma pessoa humana é sagrada, preciosa e possui uma igual dignidade:
De fato também o concebido é um ser vivente e tem direito à vida, para aqueles que o praticam (o aborto) virão gravemente condenados por Deus. Escreve Tertuliano: «A nós invés o homicídio é proibido uma vez por todas; e portanto não existe nenhuma permissão nem mesmo de suprimir o feto no útero da mãe, quando ainda o sangue materno plasma o ser humano. Impedir o nascimento é um homicídio antecipado, e não importa que se suprima uma vida já nascida ou a interrompa ao nascer. É um ser humano também aquilo que está por nascer» (Apologético 9,8). Quando o aborto vinha praticado por qualquer cristão, a Igreja cominava a exclusão para aqueles que faziam uso: «A mulher que deliberadamente procura-se o aborto seja imposta a pena do homicídio. Não se subtilize entre nós se o feto é formado ou não [...] não se deve todavia fazê-la permanecer em estado de penitência até a morte, mas regular dentro da medida de dez anos: a cura interior se estabeleça não pelo tempo, mas pela qualidade da penitência» (Basílio, Epístola 88, 2). O comportamento cristão brota de uma idéia nova: o respeito pela vida, enquanto, provém de Deus, por isso essa vai protegida de qualquer coisa que a ameace. Por isso também o abandono dos recém-nascidos – costume legalmente permitido pelo Estado até o século IV – vem fortemente reprovado, assim também a sua venda; enquanto vem aconselhado a sua adoção . (10)
Também o Papa Estevão V, em uma carta entre 887-888, se exprime sobre a malignidade do aborto direto e provocado: «se é homicida, aquele que mediante aborto tenha suprimido o concebido no útero» (DH, 670).
IV. DISCERNIMENTO ENTRE OS CAMINHOS DA VIDA E OS CAMINHOS DA MORTE
O Espírito dá o dm do discernimento. Grande desafio da humanidade discernir entre os conhecimentos que se conjugam com a sabedoria de vida e os conhecimentos que desviam esta sabedoria. Todo e qualquer conhecimento científico e tecnológica que manipule, destrua a vida humana em quaisquer de suas fases é eticamente não aceitável.
1. Discernimento sobre a pessoa humana
A pessoa humana não deve ser fragmentada, é composta de corpo e alma unus, é uma totalidade psíquica, corporal e espiritual. O que distingue os seres humanos de outros seres é a sua dimensão espiritual.
A pessoa aberta a Deus, a pessoa só se entende a si mesma transcendendo a si mesma e se orientando além de si mesma..
O homem é o único ser que tem em suas próprias mãos a faculdade de escolher seu caminho de vida. o homem deve crescer em sua liberdade responsável, como alguém capaz de responder às situações que a vida lhe coloca ou lhe impõe, tendo diante de si um universo de valores que a orientam.
2. Discernimento diante dos avanços das ciências
A ciência existe para o bem de todas as pessoas e não para afirmação de poder dos indivíduos, ou de povos. Uma ciência não deve se auto-conceber absoluta. Limites bioéticos lhe é imposta.
Afirma João Paulo II, na Fides et Ratio: “Não posso, enfim, deixar de dirigir uma palavra também aos cientistas, que nos proporcionam, com suas pesquisas, um conhecimento sempre maior do universo inteiro e da variedade extraordinariamente rica dos seus componentes, animados e inanimados, com suas complexas estruturas de átomos e moléculas...sinto o dever de exortá-los a prosseguir nos seus esforços permanecendo sempre naquele horizonte sapiencial onde aos resultados científicos e tecnológicos se unem os valores filosóficos e éticos, que são manifestação características e imprescindível da pessoa humana. O cientista são bem cônscio de que a busca da verdade, mesmo quando se refere a uma realidade limitada do mundo ou do homem jamais termina; remete sempre para alguma coisa que está acima do objeto imediato dos estudos, para os interrogativos que abrem o acesso ao Mistério” (FR, 106).
A prática da ciência deve, portanto submeter-se ao juízo ético, buscando sempre aquilo que é bom para o ser humano. Trata-se de buscar a lei natural que está inscrita no coração do homem.
A bioética que se fundamenta claramente na visão integral de pessoa insiste na busca pessoal de raízes que alicercem respostas fundamentadas na realidde própria da pessoa humana e de seu ambiente. Bioética personalista foge do subjetivismo e do relativismo ético.
3. Discernimento diante da esterilidade conjugal
Dificuldade de ter filho deve ser acolhida com muita solicitude. Mas não se pode esquecer que o filho é um dom, não é um objeto. É fruto do amos de seus pais e não um direito, algo que deve ser obtido a todo custo. Produzindo o filho em proveta que não é mais fruto do amor dos pais da dimensão unitiva e procriativa, mas se torna um produto, resultado frio e experiências médicas e laboratoriais. São válidos os tratamentos para ser superada a esterilidade que não chegue a fecundação assistida.
Várias técnicas de reprodução artificial na relaidade abrem novos atentados contra a vida. para além do fato de serem moralmente inaceitáveis, porquanto separam a procriação do contexto integralmente humano do ato conjugal, essas técnicas registram atos percentagens de insucessos. Embriões produzidos em número superior do necessário (embriões excedentes), depois são congelados, suprimidos, ou utilizados para a pesquisa. Não se pode conceber que geram uma criança em laboratório, seguindo da manipulação para avaliar a sua normalidade, envolta na eliminação de tantos outros embriões, seja compatível com a dignidade da pessoa humana.
4. Discernimento diante da gestação indesejada
O fundamento da democracia é o direito à vida e a igualdade de dignidade entre todos os seres humanos é sua condição indispensável, sua razão de ser.
O aborto é injusto. Só se escutas as falsas razões u argumentos da parte mais forte. Enquanto o ser humano inocente é assassinado. Não se pode aceitar a eliminação do ser humano inocente em nenhum caso. Devem ser desmascarados as falsas defimiçoes, tais como interrupção voluntária de gravidez ou normalização da menstruação. O aborto é uma morte direta, um assassinato do ser humano inocente.
A mulher que recorreu ao aborto e no momento que praticou ela, quem ajudou, aconselhou, os médicos e enfermeiros estão excomungados ipsum factum. Deve ser acolhida com misericórdia.
Os cidadãos de boa vontade e cristãos deve lutar para que os políticos assumam no seu programa partidário, uma programa de promoção e defesa da vida do início, da fecundação até o seu fim natural. Nós não somos obrigados a obedecer a leis iníquas.
Os profissionais de saúde tem o dever de acolher a todos, também tem o direito e o dever de se opor ao aborto, inclusive por meio da objeção de consciência e da recusa de obediência.
Devemos estar atentos diante de projetos de lei que tem por objetivo ampliar a legalização do aborto. A vida humana é sagrada e inviolável.
5. Discernimento diante da manipulação do embrião
O início bem determinado da vida humana, dom de Deus é no momento da fecundação, do encontro dos espermatozóides com o óvulo. Desde a fecundação até a morte, os processos vitais acontecem de forma interna, contínua, coordenada e gradual. O zigoto é um sujeito individual da espécie humana. Sendo um bem em si mesmo não um meio e por isso, deve ser respeitado e protegido no plano ético. A expressão pré-embrião não é adequada.
Assim se expressa Helena Lago: “O embrião humano não é somente vida humana potencialmente pessoa, mas já é uma pessoa atual em seu ser em seu ser, no sentido essencial e substancial do termo pessoa, ainda que não apresente um funcionamento consciente, reflexivo e interativo-comunicativo, depositário de interioridade e com capacidade de expressar-se corporalmente... Portanto, sua natureza humana é um bem que a razão reconhece e a fé afirma como dom de amor, proveniente de um Deus Pai” . (11)
6. Discernimento diante da vida afetivo-sexual
O homem e a mulher são chamados a ultrapassar a busca apenas de sua própria satisfação, para chegar a um encontro interpessoal, em que se busca o bem do outro. O corpo de fato, é constitutivo do ser de cada um, e revela a própria pessoa, além de ser condição indispensável e caminho para que cada um realize o projeto de sua existência. Faz-se necessário viver a beleza da vida afetivo-sexual.
O relacionamento afetivo-sexual é um caminho para a separação do individualismo e da busca exclusiva do prozer (hedonismo). A partir do amor atração (Eros), o casal é chamado a crescer e amadurecer no amor companheiro ou amizade (Philia) até chegar ao amor oblativo (Ágape). Família como verdadeira escola de amor.
A castidade significa integração correta da sexualidade na pessoa. A sexualidade, na qual se exprime a pertença do ser humano ao mundo corporal e biológico, na qual se exprime a pertença do ser humano ao mundo corporal e biológico, torna-se pessoal e verdadeiramente humana quando é integrada na relação de pessoa a pessoa, na doação mútua integral e temporalmente ilimitada do homem e da mulher.
Todo batizado é chamado a castidade. O cristão se vestiu de Cristo (Gl 3,27), modelo de toda castidade. Castidade não é sinônimo de virgindade. Já ensinava S. Ambrósio: “Existem 3 formas da virtude da castidade: a primeira, dos esposos; a segunda da viuvez; a terceira, da virgindade. Nós não louvamos uma delas excluindo as outras. Nisso a disciplina da Igreja é rica”.
7. Discernimento diante da pobreza
A pobreza é uma das grandes ameaças à vida em nosso País. A exclusão social priva as pessoas das condições materiais.
A contracepção e o aborto não podem ser consideradas soluções para os problemas decorrentes da pobreza. Não ter um filho pelas deficiências matérias é mais uma violência que a família está sofrendo. Educação para uma sadia paternidade e maternidade responsável.
Luta pela defesa da vida implica a luta: contra tudo aquilo que em nossa sociedade gera exclusão e marginalização social, por melhores condições se saúde, educação em favor da maternidade e paternidade responsáveis.
8. Discernimento diante da violência
Uma grave causa da violência nas grandes cidades é a não acolhida da pessoa, que do ponto material e econômico, quer do ponto de vista afetivo, psicológico.
Família escola de acolhida e amor.
A luta contra a violência e pela defesa da vida não deve se basear no uso da força
9. Discernimento diante do sofrimento
Discernir diante do sofrimento é descobrir seu valor e seu sentido. A vida só é plena quando vivida como oferta de si ao outro, em sua dimensão de amor – ágape. O mistério da cruz ilumina e dá sentido pleno a vida humana, inclusive seus momentos mais dolorosos.
Encíclica Salvifici doloris ; sobre o sentido cristão do sofrimento. Unidos ao Cristo, ele mesmo ilumina a realidade do sofrimento presente em nossa vida. S. Faustina: “O termômetro do verdadeiro amor é o sofrimento”.
O amor é ainda a fonte mais plena para a resposta à pergunta acerca do sentido do sofrimento. Essa recompensa foi dada por Deus ao homem na Cruz de Jesus Cristo.
Em sua vida pública Cristo mostrou-se sempre próximo e solidário a cada pessoa que sofre. Curava os doentes, consolava os aflitos, dava de comer aos famintos, libertava os homens da surdez, da cegueira, da lepra, do demônio e de diversas deficiências físicas. Veio para anunciar a boa-nova aos pobres. Esta deve ser a missão da Igreja, a missão de cada batizado promover, defender, acolher e lutar para que a vida humana e o seu ecossistema seja sempre mais respeitados e edificados.
Cristo mesmo sofreu, foi flagelado, crucificado. Por meio do sofrimento Cristo fez a oblação de si mesmo por amor. “Realizando a Redenção mediante o sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo o sofrimento humano ao nível de redenção” (SD, 19).
Chamados a sermos bons samaritanos, nos determos ante o sofrimento de um outro ser humano, seja qual for o seu sofrimento.
Segundo João Paulo II: “Tocamos aqui um dos pintos-chave de toda antropologia cristã. O homem não pode encontrar sua própria plenitude a não ser no dom sincero de si mesmo” (SD, 28).
“O mundo do sofrimento humano almeja se cessar, por assim dizer, outro mundo diverso: o mundo do amor humano”. O amor ágape é o amor totalmente desiteressado, capaz de sacrificar-se pelo outro, e só nesse sentido se pode falar de solidariedade e amor fraterno.
10. Discernimento diante da morte
Morte algo inevitável, o medo de morrer é natural, instintivo, diante da dor, da imobilização, do temor ao nada existencial. Negar a morte é algo cultural. Nossa sociedade utilitarista, materialista, hedonista valoriza o prazer, a força, a beleza da juventude, a produtividade.
A morte é o termo da vida terrestre. A morte foi transformada por Cristo, Jesus transformou a maldição da morte em benção. “Para mim, de fato, o viver é Cristo e morrer, lucro” (Fl 1,21).
A certeza que nada nos apartará do amor de Cristo, nem mesmo a morte (Rm 8,35-39). Para os que crêem em vós, a vida não é tirada, mas transformada.
241. A morte é o grande momento da vida
Apressar a morte de alguém é eutanásia, do ponto de vista moral é um mau.
Imoral também é a distanásia estender a vida da pessoa à beira da morte por meio da obstinação terapêutica. Ortotanásia – morte natural, sem recusar de cuidar do paciente com alimento e água necessários,analgésicos, deixando que a morte siga o seu curso natural.
Mistanásia; indivíduos que morrem devido aos maus tratos da sociedade, morrem excluídos até dos serviços médicos mais simples fruto de um sociedade injusta e desigual.
Só no Mistério do Verbo encarnado se esclarece o verdadeiro mistério do ser humano.
As ameaças contra a vida humana inocente não desapareceram da face da terra, ao contrário, tornaram-se mais atuantes e atingem dimensões grandiosas, por isso Maria e José se tornam ainda hoje protótipos de todos os homens e mulheres de boa-vontade que lutam em defesa da vida e por estas muitas vezes são capazes de enormes sacrifícios até mesmo do dom do martírio.
Na linha de uma atualização hodierna do assassinato das crianças inocentes por parte de Herodes, na sociedade atual, se pode refletir e aprofundar o que P. Werenfried Van Straaten, Diretor da «Ajuda a Igreja que sofre», morto a pouco tempo, declarou em seu testemunho perante a Assembléia reunida pelo Congresso Teológico Internacional sobre a Família promovido pelo Pontifício Conselho para a Família em outubro de 1997 no Rio de Janeiro, uma exposição realmente dramática da situação de ataque a vida inocente em nossos dias, que deve alertar a todos, sobretudo a Igreja, povo da vida e pela vida, que tem como protótipo Maria, serva e Mãe da verdadeira vida, e que na sua vida histórica sofreu também a perseguição de Herodes e o medo de ter o seu filho assassinado pela dominação e o ódio do tirano, assim declara Pe. Werenfried:
Quantos homens e mulheres deviam abaixar a cabeça quando ouvem o drama dos Santos Inocentes. Às mães de Belém foram tiradas as crianças dos braços. Algumas morreram porque a espadas as feriram por primeiro. Outras morreram porque o coração de uma mãe se despedaça facilmente quando vêem morrer o seu filho. Mas que coisa fazem hoje tantíssimos cônjuges. Seguem a via do assassinato escondido e matam aquilo que já começou a viver no ventre materno […] O nome de Herodes permaneceu maldito até os nossos dias. Mas aos nossos dias não precisa mais de um Herodes para assassinar as crianças inocentes. Hoje existem médicos dispostos a matar por um punhado de moedas de prata. Em todo canto existem clinicas assinaladas do sangue inocente destes pequeninos, aos quais vem negada a vida porque os seus pais se sentem ameaçados sobre o isolado trono do seu egoísmo, assim como Herodes se sentiu ameaçado sobre o seu trono de Tetrarca da Galiléia. Escândalo pode ser bem definido o moderno infanticídio. Os neonatos não são como dentes cariados que se extraem quando causam dor. Uma criança não nascida é sempre uma criança, não importa se os seus pequenos dedos são grandes três os seis milímetros. A grandeza de uma criança nada tem a ver com o seu direito de proteção, porque esta deveria ser maior quanto menor e indefesa é a criança. Mas invés de protegê-los um Estado depois do outro legaliza o assassinato de milhões de crianças [...]. O direito a vida de cada ser humano, jovem, ancião, são ou doente, é intocável. Não pode ser diretamente suprimido nem mesmo pelo interesse de outra vida. O dever de respeitar e proteger a vida pertence ao nosso bimilenário patrimônio cristão [...] depois de Herodes vem Nero e depois de Hitler vem os abortistas. Por isso torna sempre a Sexta Santa. E mil vezes as cruzes se erguem sobre estes patíbulos e câmeras de gás, sobre as fossas comuns daqueles que morreram com uma bala na nuca e sobre os estrumes que servem de sepulturas para as crianças assassinadas. A Sexta Santa com a cruz de Cristo inocente assassinado permaneceu. Mas também o véu permaneceu. Não o véu no templo, mas o véu da mentira e do engano do jornal, rádio, televisão que estenderam pelo mundo. O véu que fecha a sede do sangue dos assassinos. Não, não os chamais médicos quando vos visitam com luvas e sorrisos. Porque sob as suas luvas se escondem as unhas dos estranguladores e atrás do seu sorriso esses tramam de novo a matança de Belém. As suas mãos estão manchadas de sangue dos inocentes. Chamai-os assassinos. Chamais para dentro de casa as vossas crianças e trancais as vossas portas quando estão vizinhos. Chamai-os assassinos e não deixai-vos enganar do véu das mentiras. Esse são a serviço do diabo! . (12)
Mas a grande certeza é quem age na história é mais forte do que o mal, a morte e de todas as suas estruturas malditas e realmente e protege sempre a vida como protegeu do seu próprio filho, o menino Jesus, é o Deus da vida, vivo e verdadeiro (13). Contra os ataques dos novos Herodes que insistem em maquinar contra a vida humana inocente, sobretudo daquela dos mais indefesos e pobres em sua dignidade de pessoa humana, a Igreja que tem em Maria seu protótipo de acolhimento e defesa da vida, daquela vida pelo qual cada ser humano é chamado a acolher, é sempre atual as palavras de João Paulo II que não hesita de confiar à Mãe da vida o empenho da Igreja para que seja sempre fiel à sua missão. E que assim como Maria e imbuídos do seu espírito de respeito a sacralidade da vida, que todos os seres humanos possam reconhecer verdadeiramente que a vida começa desde o momento da concepção, como ela reconheceu, venerou, defendeu a vida do menino Jesus, sem hesitação de todas as ameaças e perigos, do Herodes de ontem e dos Herodes de hoje. De modo profético exprime-se João Paulo II:
Todos os seres humanos deveriam apreciar a individualidade de cada pessoa como criatura de Deus, chamada a ser irmão e irmã em Cristo em razão da encarnação e redenção universal. Para nós a sacralidade da pessoa humana é fundada sobre estas premissas [...] Portanto reagiremos cada vez que a vida humana é ameaçada. Quando o caráter sacro da vida antes do nascimento vem atacado, nós reagiremos proclamando que ninguém tem o direito de destruir a vida antes do nascimento, quando se fala de uma criança como um peso ou a considera como meio para uma satisfação de uma necessidade emocional. Nós interviremos para insistir que cada criança é única e irrepetível dom de Deus, que tem direito a uma família unida no amor [...] Quando os doentes, ou os moribundos são abandonados, nós reagiremos proclamando que esses são dignos de amor, de solicitude e de respeito [...] Temos confiança em Maria, a Mãe de Deus e a Mãe da vida, nos dará a sua ajuda a fim de que o nosso modo de viver reflita sempre a nossa admiração e reconhecimento pelo dom do Amor de Deus que é a vida. Sabemos que Maria nos ajudará a usar cada dia que nos é dado como uma oportunidade de defender a vida já antes do seu nascimento e para tornar mais humana a vida de nossos irmãos, onde quer que estejam . (14)
O Papa Bento XVI com voz forte e em nome da Igreja, povo da vida e pela vida tem se pronunciado de modo eloqüente em prol da defesa e promoção da vida, onde recorda como Maria, Mãe da verdadeira vida nos ajuda nesta luta para reconhecer a sacralidade da vida humana em qualquer um dos seus estágios:
Cada vida humana, enquanto tal, merece e exige ser defendida e promovida […]. Partindo, invés do amor por cada pessoa, é possível colocar em ato formas eficazes de serviço à vida: àquela nascente, como aquela assinalada pela marginalidade ou pelo sofrimento, especialmente na sua fase terminal. A Virgem Maria acolheu com amor perfeito o Verbo da Vida, Jesus veio ao mundo para que os homens “tenham a vida em abundância” (Jo 10,10). A ela confiamos as mulheres que estão esperando nenê, as famílias, os agentes de saúde e os voluntários que se empenham de muitas maneiras ao serviço da vida . (15)
E no discurso de grande profundidade e importância, conferido aos participantes do Congresso Internacional promovido pela Pontifícia Academia para a vida sobre «o embrião humano na fase da pré-implantação », em 27.02, assim se expressou:
O Amor de Deus não faz diferença entre o neo-concebido ainda no útero de sua mãe e a criança, ou o jovem, ou o homem maduro ou ancião. Não faz diferença porque em cada um desses vê o sigilo da sua própria imagem e semelhança (Gn 1,26). Não faz diferença porque em todos contempla refletido o rosto do seu Filho unigênito […]. Por isto o Magistério da Igreja tem constantemente proclamado o caráter sacro e inviolável de cada vida humana, desde à sua concepção até o seu fim natural (cf. EV, 57). Este juízo moral vale já nos inícios da vida de um embrião, mesmo ainda que seja implantado no seio materno, que o protegerá e nutrirá por nome meses até o momento do nascimento: “A vida humana è sagrada e inviolável em cada momento da sua existência, também naquele inicial que precede o nascimento” . (16)
(1) Resumo do texto da Campanha da Fraternidade e defesa da vida com o olhar de tirar elementos positivos para a construção de uma Bioética personalista, Pe. Dr. Adilton Pinto Lopes.
(2) GIOVANNI PAOLO II, «Discurso as famílias de todo o mundo no Maracanã», 4 ottobre 1997, in Ins XX/2, 494-499); CONGREGAZIONE PER LA DOTTRINA DELLA FEDE, Dichiarazione sull’Aborto Procurato: Testo della Dichiarazione e Documenti degli Episcopati, Città del Vaticano 1998, nn. 8-13.
(3) «A primeira menção clara do aborto em ambiente cristão a oferece a Didaké. Doutrina dos doze apóstolos, a data de composição deste documento autoritativo não é certa: os autores oscilam entre a segunda metade do séc. I D.C e a primiera menade do séc. II. Se è invés, comum a opinião sobre a origem siriana e palestinense, e sobre o seu autor, que vem identificado como um judeu convertido ao cristianismo, mas que se formou em um ambiente tipicamente hebraico […]. O convite para não abortar ressoa enfim em um escrito judaico anônimo do I séc. D.C., que se mascara atrás do nome do antigo poeta do séc. VI., A.C Focilide de Mileto: “a mulher não corrompa o filho no estrado de embriao dentro do útero, nem depois que foi dado à luz, ou o jogue em preda de cães e abutres”. É neste contexto cultural que se funda as raízes da didaché. Como se è facilmente notado, o núcleo central desta obra, utilizando um esquema de vertente judaica, o esquema dos dois caminhos, elenca uma série de preceitos para serem observados para poder seguir o “caminho da vida”» (P. SARDI, L’aborto ieri e oggi, 65-66).
(4) «Aristoteles (384-322 a. C.) afronta no VII Livro da sua Polótica (Obra composta entorno de 345 A.) o tema de uma racional disciplina da procriação no quadro de um estrado ideal. Com maior realismo de Platão ele indica caramente no aborto praticado, ao início da gravidez o meio idôneo a conter a procriação dentro de justos limites. Eis as sua palavras: “Quanto pois em relação a amamentação dos recém-nascidos, seja norma não alimentar nenhuma criança deficiente, quanto pois aos números de filhos, se a regra do costume proiba que alguns dos nascidos venha exposto, è necessário fixar o máximo da procriação”» (P. SARDI, L’aborto ieri e oggi, 23).
(5) Didaqué ou Doutrina dos Apóstolos, Introdução tradução do original grego e comentário de U. ZILLES, Petrópolis 1971, 23.28.
(6) Cf. P. SARDI, L’aborto ieri e oggi, 28-29.
(7) Cf. D. TETTAMANZI, La comunità cristiana e l’aborto, 128-152.
(8) SACRA CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDEI, Declaratio De abortu procurato, 18 Novembris 1974, 7, AAS 66 (1974) 734-736.
(9) Cf. GROSSI, V. – DI BERARDINO, A., La Chiesa antica: ecclesiologia e istituzioni, Roma 1984, 191-192.
(10) GROSSI, V. – DI BERARDINO, A., La Chiesa antica, 242 (nossa tradução).
(11) Elena LAGO, Bioética personalista. Argentina, Ed. Patris, 2006, p. 121.
(12) W. VAN SRAATEN, «La nuova strage degli innocenti», in PONTIFICIO CONSIGLIO PER LA FAMIGLIA, La famiglia: Dono e impegno speranza dell’umanità. Atti del Congresso Internazionale Rio de Janeiro, 1-3 ottobre 1997, Città del Vaticano 1998, 123-125. 128.
(13) Cf. W. TRILLING, Commenti spirituali del Nuovo Testamento, Vangelo secondo Matteo, Roma 1964, 38.
(14) GIOVANNI PAOLO II, «L’omelia al “Capitol Mall”- Washington (USA)», 7 ottobre 1979, in Ins., II/2, 702. 704.
(15) BENEDETTO XVI, «L’Angelus: Ogni vita umana, in quanto tale merita di essere sempre difesa e promossa», in L’Osservatore Romano, anno 146, 6-7 febbraio 2006, 4.
(16) BENEDETTO XVI, «Discorso ai partecipanti al Congresso Internazionale promosso della Pontificia Accademia per la vita», in L’Osservatore Romano, anno 146, 27-28 febbraio, 7.