Apresentação da Caritas in Veritate em Salvador
Por Dimitri Martins e Davi Brazil
No dia 29 de julho de 2009, aconteceu no auditório do CEPEX (Centro de Pesquisa e Extensão) da Universidade Católica do Salvador, a apresentação da nova encíclica do Papa Bento XVI, Caritas in Veritate (Caridade na Verdade), contando com a presença de Dom João Carlos Petrini, Camilo de Santa Bárbara Júnior, Padre Maurício Ferreira e Otoney Alcântara. Cada palestrante destacou certos aspectos específicos, de acordo com suas respectivas áreas de interesse e inquetação.
Dom Petrini, Bispo Auxiliar de Salvador exerceu o papel de mediador, fazendo uma pequena introdução à apresentação. Para ele, a nova encíclica é uma proposta de diálogo com todos do mundo moderno, principalmente com os cientistas e intelectuais dotados de certa “pobreza de espírito”, isto é, minimamente dispostos a se desapegar, para fins de reflexão autêntica, dos seus esquemas ideológicos, segundo os quais pretendem explicar toda a realidade. Antes mesmo de escrever essa encíclica, tem sido um tema recorrente das falas do Papa a proposta de alargamento da razão. É certo que outros intelectuais (foram citados especialmente Adorno e Horkheimer) efetuaram críticas à chamada “razão instrumental”. Entretanto, permanecia por fazer a tarefa de sugerir, mesmo de forma inacabada, alternativas ao atual cenário de redução da racionalidade. Contribuições nesse sentido são um dos focos do esforço do Papa Bento XVI. Vale dizer que a problemática atrelada ao estreitamento da nossa humanidade é conseqüência direta do triunfo do ideário iluminista. Para fins de explicação, é interessante recordar como o positivismo nos propõe o abandono da busca pelo significado último da realidade, isto é, defende um “ceticismo metafísico”. Uma vez perdido o vínculo vital e identitário com o Mistério, abre-se o caminho para o uso e instrumentalização da pessoa, sustentados por uma ampla variedade de critérios arbitrários. Podemos dizer que hoje se vive num mundo de muita intimidade e pouco amor, caritas, dom de si mesmo para o bem do outro. Diante desse cenário - pergunta-se Dom Petrini: "onde podemos encontrar a fonte do amor por excelência?" E responde: "Em Deus".
Já para Camilo, Mestre em Sociologia e Professor da Universidade Federal de Sergipe, uma grande observação que o Papa nos faz com essa encíclica é a de que “o receber tem precedência sobre o fazer”. Antes de qualquer outra coisa, ou ainda qualquer ação, nós recebemos dois dons básicos, não contraditórios entre si, mas complementares: a Criação e a Salvação. Outra conclusão que podemos destacar é o diagnóstico de que a lógica da dádiva, tal como abordada na encíclica, corresponde ao ideal organizativo da sociedade, porque a lógica da dádiva é anterior ao Mercado e ao Estado.
Para o Padre Maurício, doutor em teologia moral e professor da Faculdade São Bento, a caridade na verdade não é uma terceira via ideológica, dado que a doação de si possui uma substancialidade própria, ou seja, uma concretude. Nas suas discussões sobre o desenvolvimento humano, entendido aqui como crescimento total do “eu”, o Papa Bento XVI resgata o conceito de “humanismo integral”, elaborado pelo importante filósofo francês Jacques Maritain e utilizado anteriormente pelo Papa Paulo VI. Esse mote é uma síntese capaz de contemplar de modo razoável a complexidade da personalidade humana. Em acréscimo, o Santo Padre posiciona-se contra uma visão da política enquanto caminho salvífico por excelência. Isso significa dizer que a plenificação da pessoa não será alcançada por uma perspectiva exclusivamente imanente, uma vez que os seres humanos sozinhos não são capazes de alcançar a salvação. Nesse sentido, o primeiro passo para a redenção é olhar a si e ao semelhante como dom de um Outro, postura capaz inclusive de modificar as relações dentro do mercado.
Por fim, Otoney, advogado e professor de Direito Constitucional na Faculdade de Tecnologias e Ciências, mostra o ponto principal da encíclica: a afirmação de Bento XVI de que o anúncio de Cristo é a mola propulsora de um desenvolvimento verdadeiramente humano, caracterizado por um crescimento integral do “eu” e pelo florescimento de todas as suas potencialidades. Nesse sentido, para ele, tudo escrito ao longo da encíclica constitui uma palavra dirigida a cada um de nós de modo pessoal. É indispensável colocar-se diante de tal mensagem comparando-a com a nossa experiência cotidiana. Otoney afirma que para a compreensão plena do significado desse anúncio é necessário entender como a experiência de caridade vivenciada, por exemplo, no âmbito da família, pode figurar como um patrimônio para a política. Segundo ele, a verdadeira caridade é iluminada pela razão e pela fé, instrumentos que nos permitem reconhecer uma Presença histórica extraordinária. Graças aos próprios meios que utilizamos para aceitar de modo razoável a companhia de Cristo, nota-se o caráter objetivo da caridade, avessa a elocubrações e sentimentalismos. Esse respaldo objetivo da caridade, por sua vez, revela a dimensão pública da fé. As mediações que permitem o amplo impacto da caridade na sociedade são, então, os fatores que promovem a capacidade associativa dos cidadãos, isto é, o reconhecimento e a prática dos princípios de solidariedade e subsidiariedade entre todas as comunidades constitutivas do corpo social. Em acréscimo, Bento XVI destaca como a caridade supera a justiça, uma vez que a doação de si a um outro só faz sentido quando a esse outro já foi entregue tudo o que lhe pertence por direito. A proposta de vivência da caridade na verdade é um convite a pessoas interessadas em agir de modo reto, tendo em vista o bem comum, a despeito de suas limitações e do reconhecimento do pecado original. Sem dúvida alguma, sua viabilidade não é possível sem uma educação de nossa humanidade que seja coerente com as nossas exigências elementares, nosso desejo de eternidade e de infinito.
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