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Entrevista sobre o Aborto


Dom João Carlos Petrini

 

Entrevista com Dom João Carlos Petrini

- Porque os católicos são contra a legalização do aborto?


A pessoa humana é constituída por um conjunto de exigências originárias, documentadas por todo o agir humano, em todas as épocas e em todos os lugares: exigências de verdade, beleza, amor, liberdade, felicidade, justiça, paz e bondade. A exigência de bondade fez da compaixão um dos motores do agir humano: este motor fez o homem, ao longo dos séculos, construir as escolas para educar as crianças e os jovens, os hospitais para cuidar dos doentes, os orfanatos para cuidar dos órfãos. Assim sendo, à medida que a civilização foi avançando, os homens foram construindo diversas obras visando responder às suas próprias exigências originárias, que são o profundo do humano. A função da Igreja é justamente a de educar essas exigências, que, se de um lado são naturais, por outro não são espontâneas; chamando a atenção do homem constantemente para a beleza e para o bem. De fato, após a irrupção do acontecimento cristão pelo mundo, multiplicaram-se as escolas e os hospitais, os orfanatos e as universidades, e além de tudo isso, as catedrais emergiram como o símbolo máximo da busca pela beleza e pela unidade do povo.
A legalização do aborto apresenta-se como diretamente contrária à exigência originária do amor, de amar e ser amado, de acolher o outro incondicionalmente, tal como ele é. O aborto é contrário às exigências mais profundas do homem, de tal forma que, no Brasil, aproximadamente 91% da população se apresenta contra este ato, que não só é contrário às exigências mais profundas do coração humano, de amar e ser amado, como ao mesmo tempo se configura como a maior forma de violência, porque é o assassinato cruel do ser mais inocente e indefeso, que é a criança não-nascida.
A defesa do aborto não é natural e nem é solução para um problema de saúde pública, é eminentemente ideológica, se constitui parte de uma ideologia que busca reconfigurar o conceito de homem e de mulher, inscrevendo-se na cultura do “burguesismo radical”, onde cada qual é chamado a seguir somente os próprios caprichos e fantasias; do relativismo, no qual nenhuma certeza mais é possível; e do niilismo, que aponta a transvaloração de todos os valores como sua meta mais ambiciosa. A defesa do aborto não é natural porque é contrária às exigências originárias do coração humano, ela é “empurrada de cima para baixo” por uma mentalidade que vem de um poder que é contrário ao homem, e que deseja construir um tipo humano que lhe seja funcional e “à sua imagem e semelhança”, cortando dele as suas exigências elementares, que são como que a sua marca interior, e, portanto o adversário mais temível de um poder que queira reconfigurar o humano no mais profundo da sua essência.


- O que já está sendo feito para impedir a aprovação de tal lei que descriminaliza o aborto?


A Associação de Famílias tem colaborado em campanhas a nível nacional, sobretudo colhendo assinaturas que foram enviadas ao Poder Legislativo para deixar claro que a grande maioria do povo brasileiro é contra o aborto. No ano passado unimos os nossos esforços aos da Campanha da Fraternidade que tratou da defesa da vida. Formamos, em parceria como Pontifício Instituto João Paulo II, um curso de extensão em bioética, na linha personalista, para que todos os homens de boa vontade sejam esclarecidos sobre diversos temas, entre eles o aborto. Promovemos eventos de formação acerca da vida e da importância de sua defesa, o mais importante deles em junho de 2008, o Seminário “Vida humana: entre agressão e defesa”, com diversos especialistas entre eles, o Ex-Procurador Geral da República, o Dr. Cláudio Lemos Fonteles, autor da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIn) contra o artigo 5º da Lei de Biossegurança.
Em geral a Associação de Famílias tem buscado apoiar, de formas variadas, todos os organismos civis e movimentos políticos que sejam contrários à descriminalização e que denunciam a ação dos políticos a favor do aborto para que o nosso povo não mais os eleja.

- O que acredita que seria importante ser feito para mobilizar a sociedade para ações pró-ativas;


Conscientização da população através dos diversos meios que dispomos. Congressos abertos ao público mostrando a crueldade dos vários tipos de aborto. Manifestações públicas como passeatas e comícios que chamem atenção da sociedade para a gravidade do problema. Palestras em Igrejas, associações, escolas etc. que tenham como tema a defesa da vida humana desde a concepção até o seu fim natural. Divulgar materiais como cartilhas, livros e revistas que mostram as razões pelas quais nos opomos veementemente à discriminalização do aborto.
Formação, nas diversas esferas do poder legislativo, de comissões que realmente defendam a vida humana. Apoiar políticos que tenham como um dos elementos do sua proposta de mandato a defesa da vida humana inocente e que sejam contrários à legalização do aborto. Divulgar os nomes e partidos de todos os vereadores, deputados e senadores que estejam apoiando a legalização do aborto, afim de que tais elementos não sejam mais eleitos.

- Como minimizar o verdadeiro problema de saúde pública que é a gravidez indesejada?


A gravidez indesejada, antes de mais nada, é fruto de um comportamento descompromissado dos jovens, que é insuflado pelo poder, especialmente através dos meios de comunicação, como o ápice da liberdade e do progresso cultural. Este é um comportamento que desvincula a maternidade do amor e do compromisso matrimonial. Portanto, a melhor forma de minimizar o fruto desse comportamento é cortar na raiz este mesmo comportamento, incentivando nos jovens a vivência da sexualidade de uma forma mais condigna à razão humana, ou seja, a abstinência e a fidelidade. Este método é tão eficaz que reduziu o número de contaminados por AIDS em Uganda em 75%, onde ele se tornou política pública do Estado e por razões quase óbvias, é eficaz também para o planejamento familiar e para o controle da gravidez indesejada. Além disto, deve-se pensar em uma educação sexual integral que não se limite a ensinar métodos anticoncepcionais artificiais, ou o aborto, mas em uma educação sexual que reflita que a pessoa humana não é um objeto e não pode ser reduzido a objeto de prazer. Deve-se mostrar a beleza da sexualidade que não deve ser vista só como exercício da genitalidade. Uma educação sexual que promova o matrimônio, a família e redescubra o valor da castidade e do pudor. O melhor remédio até mesmo para as doenças transmissíveis não é a camisinha, mas a abstinência para os solteiros e a fidelidade dentro do matrimônio. Também deve-se promover uma saúde pública que se preocupe em salvar tanto a vida da mãe quanto a da criança, ao invés de em muitos casos procurar retirar a vida da criança, dado que os dois têm o mesmo direito a vida.

 



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